10. Teoria do Amor e da Morte

COLECÇÃO LUSÍADA
Afonso Botelho
Nº 10 | 182 páginas | 1996
Formato: 160 x 230 mm
P.V.P. 17,00€
Mais informações:
info@fundacao-lusiada.org
«O encanto, diferentemente do espanto, não provoca pela dependência nem pelo embate, porque, como o mistério que manifesta, preserva a liberdade de escolha do ser encantado, age pela sedução do espírito, que emerge como um perfume benévolo.
O duplo sentido de origem, imanente e transcendente, é próprio de, e indispensável a toda a metafísica que se imponha recuperar o ser, desde a origem à sua última expressão.
Os movimentos do encanto são, assim, solidários da visão criacionista e pode mesmo dizer-se que a têm por condição prévia.
Uma teoria universal do encanto deve esgotar as diferenças essenciais que desabrocham do verbo encantar, cuja raiz latina (incantare) contém, em si mesma, o significado de enfeitiçar e de cantar em. Este último significado, traduzindo o canto que a simples existência das coisas emite, exprime o misterioso princípio originário que há nelas e tem, simultaneamente, a função de nos atrair para o conhecimento desse mistério. É, contudo, uma atracção que não resiste à análise racional e à interrogação crítica, porque como diz Schiller, “o encanto da beleza apoia-se em seu mistério; se desfazemos a trama subtil que enlaça os seus elementos, evapora-se a essência toda”.
Com efeito, por definição, a mónada amorosa é composta por duas substâncias, que são os amantes, e sem esta complexidade não haveria sequer o amor que a qualifica. Contudo, essa complexidade não retira à mónada, nem a simplicidade nem a indivisibilidade, que importam à sua autonomia.
Na realidade, o que torna simples a mónada não é a sua composição estrutural no seu conjunto, mas o princípio que a informa e esse, da ordem do espírito, não só é simples em si mesmo, como transforma os compostos substantivos em unidades irredutíveis ou indivisíveis.
De facto, e enquanto o amor dá forma aos cônjuges, a unidade que prefiguram é simples e irredutível, embora, como substâncias, componham essa estrutura.
A aparente contradição interna desfaz-se, tendo em conta que o princípio simples espiritual reserva o poder transformador e que essa transformação se efectua numa relação completa com o corpo, alma e espírito dos amantes.»