Poema a Pinharanda Gomes, por Maria Azenha

Poema a Pinharanda Gomes, por Maria Azenha

Há poetas sábios difíceis de imaginar num livro de contas  

Há poetas que nos matam, que nos comem, que nos tragam.
Há poetas que voam como pássaros, soltando o vazio em cada página.
Há poetas condenados a fantasmas retendo o silêncio de anjos indomáveis.
Há poetas corredores, poetas-pedras, com barrigas gordas e seus tambores.
Há poetas sábios em seus semáforos difíceis de imaginar num livro de contas.
Há poetas acompanhados por anfíbios e jurados em dias intermináveis.
Há poetas consagrados na ponta dos sapatos.
Há poetas convertidos a formatos da web em lagos redondos.
Há poetas quadrados, minuciosos, trancados por misteriosas sombras.
Há poetas amargurados como aves em gaiolas de ouro e como loucos noivos.
Há poetas em lua de mel arruinados pelas folhas do outono.
Há poetas trintintim de um momento para outro.
Há poetas engolidos por florzinhas com gafanhotos juntos.
Há poetas devorados pelos loucos e por todos os sonhadores do mundo.
Há poetas-século com raízes em arbustos a jorrar sangue pelo nariz e pela boca.
Há poetas que vivem com suas madres na Via Ápia anunciando o vendaval dos dias que hão de vir e estão presentes.
Há poetas calcinados por memórias de relâmpagos precipitando-se no abismo dos dedos.
Há poetas que manuseiam os seus violinos em alfabetos sagrados.
Há poetas delicados que compõem cânticos a partir de um monte de escombros.
Há poetas do acaso desconhecidos e sempre acordados.
Há poetas solitários, brilhantíssimos, de visão olímpica.
Há poetas políticos, malditos, compondo toda a noite torneios contra a canção dos meninos.
Há poetas que vivem em carruagens de luxo puxadas por mil crianças e cavalos com feridas de amargura.
Há poetas-cortinados do infinito que usam candelabros no suicídio das unhas.
Há poetas “likes” que são o auto retrato da Lei dos grandes números.
Há poetas-segundo na lira das massas com milhares de seguidores.
Há poetas-pop em suas comunidades de fardas e populismos.
Há poetas minoritários que se adiantam aos cadernos místicos dos santos e dos filósofos.
Há poetas académicos de coração maquiavélico que têm horror ao vazio.
Há poetas avulso. Há poetas polícias. Há poetas carcereiros.
Há poetas que são o auto retrato do inferno em terríveis galerias do mundo.
Há poetas que são poetas e escrevem os grandes incêndios dos vagabundos.
Há poetas da liberdade.
Há poetas – música. Há poetas da melancolia. Há poetas – Nada.
Há poetas que incendeiam.

Conheço alguns, são raros. E basta.

 

Maria Azenha