20. Colóquios – A Geopolítica dos Descobrimentos (…)

20. Colóquios – A Geopolítica dos Descobrimentos (…)

COLECÇÃO LUSÍADA

Vários Autores
Nº 20 | 166 páginas | 2001
Formato: 160 x 230 mm

P.V.P. 15,00€

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“Colóquios – A Geopolítica dos Descobrimentos Portugueses”

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«Esta função medianeira do Amor avulta sobretudo quando o poeta imagina o culminar da viagem dos novos argonautas, alcançando o limiar da eternidade, não pela posse simbólica do ouro, mas pelo conhecimento amoroso com entes sobrenaturais. Como sempre numa ilha, tal a de São Brandão medieval, mas onde são mais evidentes que em qualquer outra os caracteres paradisíacos. Tal era o empenho do poeta em convencer EI-Rei D. Sebastião, a quem dedicava o poema, como os demais portugueses, para quem o escrevia, que quanto da obra feita acabara de cantar não era senão o princípio da que ainda faltava levar a bom termo!

Fosse qual fosse o seu influxo no ânimo do monarca, o facto é que, tal como se iniciara com D. Afonso Henriques, assim também então, em batalha campal contra os inimigos da fé, se interrompera, com D. Sebastião, dramaticamente, o percurso tão felizmente começado. E ainda desta vez milagrosamente assinalado, não já com o aparecimento de Cristo, mas com o desaparecimento do rei vencido; como se, derrotado no campo da batalha, lhe sobrasse ainda a virtude e o ânimo para transferir a outro plano, ignoto e mais subtil, a obra que não findara ainda ali. Tal como na sublime prece da Mensagem Fernando Pessoa veio um dia a consignar:

Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Houve, pois, em Portugal – e não apenas em transitória fase de crise ou exaltação -, bem viva a noção de não ser ele um reino igual aos demais, não por qualquer privilégio que o isentasse da comum condição humana, mas porque um alto desígnio lhe impunha antes acrescidas responsabilidades e quiçá provações mais duras. Na tradição popular – como exemplarmente o mostrou Jaime Cortesão e, mais próximo de nós, Agostinho da Silva -, como entre os letrados mais identificados com o seu povo, esteve sempre viva a consciência de uma missão redentorista, salvífica, messiânica, atribuída a Portugal.

Quem sabe? Se, como dizia Álvaro Ribeiro, o V Império é o do quinto elemento, porventura acerte António Telmo ao ler no Horóscopo de Portugal a próxima entrada num novo ciclo, desenhado noutra esfera, que não corresponderá porventura à das terras, dos mares e dos céus que os navegadores portugueses descobriram com a Índia. Com Pascoaes e Pessoa, na senda de Bruno, essa leitura dos sinais confirma-nos na ideia de que não é na continuidade do caminho que temos trilhado desde há séculos – recuando, a cada passo, para mais longe do que é o nosso «lugar natural», a nossa natureza mais autêntica -, que reencontraremos a senda perdida.

Não temamos o descaminho – não escreve Deus direito por linhas tortas?! -, hoje como outrora, a via real a trilhar é a da aventura, ousada, mas racional, com risco, mas com rasgo. Deixemos os caminhos por demais trilhados, a certeza dos métodos confirmados, a segurança das normas gerais. Na manhã de nevoeiro todos os caminhos estarão irreconhecíveis!»

Joaquim Domingues

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