03. O Novo Argonauta

03. O Novo Argonauta

COLECÇÃO POESIA

Dalila Pereira da Costa
Nº 3 | 96 páginas | 1996
Formato: 160 x 230 mm

P.V.P. 15,00€

Mais informações:
info@fundacao-lusiada.org

DA VIDA NO TEMPO À VIDA NA ETERNIDADE

A CAVERNA DO TEMPO

Sinto tudo na caverna erma das águas verdes
entre seus murmúrios de cantiga ouvida contínua
e pausas de longe ecoando, em funduras ignorada
s de noites acumuladas.
Água cantante, marcha acompanhante
que ecoa sob tectos e tectos ignorados
de nome negado nunca ouvido
nem marcado em humana escrita.
Só nesses fundos mais fundos da caverna
ao longe do longe murmurados
em ecos repetidos de hinos cantado
s mais e mais longínquos.
Murmúrios só murmúrios nos fundos da terra
no seu coração batendo em ecos de ecos
desde o alto céu se prolongando
e ao abismo da terra chegando.
Cronometria silenciosa do tempo
nesses fundos sugados.
Do tempo que avança e se lança
no ignoto futuro a passos tão leves
e breves que água lava e apaga e logo abafa.
Coleante cobra que ao passar sobre a terra
sua pele deixa num sucessivo largar
sem passos ouvidos nem pressentidos.

O NOVO ARGONAUTA

O homem de calças verdes entrou,
gesticulando e falando exuberante.
O resto da cena eram velas brancas
e mapas de terra ignota.
A destreza para si reclamava
de descobrir novos mundos:
como à face oculta da noite
sucedendo-se a face aberta do dia.
Do lado nascente o carro do Sol
vindo à sua procura.

O ensino estagnado, a escolástica ossificada largadas:
o desabrochar da anémona, o figurar da rosa é tão grande
que abertura do céu permite: e surge o perfil do Santo
à luz da tarde sepulcral.
O homem obscuro patenteando sua ignorância,
com a força dos passarinhos faz rezar as pedras
e acrescentar a partir do Um a graça desejada.
Caminhando pela estrada da lua
sem uma só vez para traz olhar,
olhos postos na meta, coração rubro ardente:
venham ver Aquele que nunca se vê.

Reza o coração, o pensamento se cala,
o mundo deixa, o céu escala.

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