2017/03 Março

2017/03 Março

O patriotismo emocional é um fogo de palha, que ora se inflama à matéria de um efeito desportivo, ora se afunda por completo ao aceitar sem um assomo de resistência as leis, os actos de governação, as propostas políticas, culturais ou estéticas mais radicalmente avessas aos interesses nacionais, à vontade de regeneração segundo a identidade portuguesa às traves mestras da nossa estrutura cultural.

O patriotismo familiar, habitual e espontâneo não é suficiente para fundamentar uma convicção patriótica resistente, coerente é à prova de todos os desafios exteriores, modos e ideologias deformadoras.
Ele exige na verdade, ao seu nível e para além dele, a religação áquilo a que poderíamos chamar o patriotismo nacional de elites conscientes do significado dos valores que nele se representam.

A comunhão colectiva do patriotismo, para não degenerar em fanatismo, em psicologia de rebanho, ou em vacuidade sentimental à flor da pele, depende da capacidade intelectual de uma geração para formular a sua própria patriosofia.

Religação a um centro axiológico, intelectual e criacionista do qual derivam, como em círculos que se esbatem quanto mais dele se afastam, as formas mais ou menos despertas de tal convicção.

O que na realidade se esbateu ou desapareceu quase por completo entre nós, não foi o patriotismo emocional que, por ser insuficiente, é muitas vezes manipulado por ideologias e demagogos de má-fé, foi a relação fundamental da “substância”, e dos “princípios” da identidade pátria com a sua “razão teleológica” em movimento, relação que um dia corporizou no “projecto áureo português”, centro vital e motor da tradição lusíada, e que aguarda a reactivação ou a renovação sempre possíveis desde que se cumpram as imprescindíveis condições.

António Quadros
In “Portugal, Razão e Mistério