2016/07 Julho

2016/07 Julho

Em homenagem ao grande escritor, poeta e filósofo brasileiro Gerardo Mello Mourão que tanto dignificou e divulgou a Língua Lusa desde o Brasil à China, desde Portugal à Índia, iremos evocar três poemas dele, neste mês e no de Agosto e Setembro, todos compilados e insertos no último Poema Épico do séc. XX escritos por Gerardo Melo Mourão a que ele deu o título de:

“Invenção do Mar”

ARVORAMOS A CRUZ

Lavrada por dois carpinteiros
e o Capitão mandou marcar o sítio onde seria fincada
e a cruz foi levada em procissão
com os freires e clérigos cantando.
E eles depuseram arcos e setas
e nos ajudaram a levar a grande cruz
e estiveram à sombra dela
e a cruz plantada – obra de dois tiros de besta do rio –
ali ficou com as armas
E a divisa de Vossa Alteza.
Eles são inocentes como Adão
não lavram nem criam
nem há boi ou vaca cabra ou galinha
e não têm adoração nem idolatria
e um deles acenou, chamou os outros –
acenou com o dedo para o altar
e depois apontou com o dedo para o céu.
Até agora não podemos saber se há ouro
ou prata ou outros metais nesta terra
contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar
é salvar esta gente.
Ao partir fomos beijar a cruz
e eles a beijaram como nós
e o Capitão deixou aqui dois degredados
e dois grumetes sumiram de bordo –
não voltaram mais – (a terra enfeitiçou os dois) –
e de manhã, prazendo a Deus,
fazemos nossa partida
rumo a Calicut.
E estas são as letras e a escritura do escrivão
Na primeira manhã do mundo

Gerardo Mello Mourão
em “Invenção do Mar”