2016/06 Junho

2016/06 Junho

GOMES LEAL dedicou a CAMÕES
um poema chamado “A Fome de Camões”

Do Primeiro Canto desse poema “A Tragédia da Rua” composto por 43 Estrofes de 8 versos cada uma, se transcreve hoje aqui duas delas em homenagem a Luiz Vaz de Camões no 436 aniversário da sua morte

Este vulto, portanto, que caminha
Altas horas, ao frio das nortadas,
É Camões que se definha
Nas ruas de Lisboa abandonadas.
É Camões que a sorte vil, mesquinha,
Faz em noites de fome torturadas,
Ele o velho cantor de heróis guerreiros!...
Vagar errante como os vis rafeiros.
Morreu-lhe o escravo, o seu fiel amigo,
O seu amparo e seu bordão no mundo,
Morreu-lhe o humilde companheiro antigo,
No seu peito, deixando um vácuo fundo.
Hoje, pois, triste, velho, sem abrigo,
Faminto, abandonado e vagabundo,
Tenta esmolar também pelas esquinas.
Ó lágrimas!... Ó glória!... Ó ruínas!..

Antologia Poética de Gomes Leal,
Guimarães Editores – Fev. 1970