2014/10 Outubro

2014/10 Outubro

Ó santos corações do povo!
Mas do povo das montanhas, direi; do povo que ainda não saiu às praças vociferando que é rei porque é povo!

Das palavras de independência e liberdade, lançadas no meio alvoroçado das multidões, deviam, como semente do mal, germinar frutos de maldição.

A liberdade e a independência não seriam bastante incentivo para mover as molas estúpidas das massas, se algumas grandes promessas a cumprir logo lhes não fosse feita. Prometeram-lhes a partilha dos domínios exagerados das ordens religiosas, prometiam-lhes uma liberdade de acção que não gozavam, prometiam-lhes o roubo e a licença… que mais alentos precisavam as turbas para marcharem entusiastas à destruição…?``.

“A democracia não arranja um Santo para o seu martirológico. Ela tem contra si o descambar para a canalhocracia.

Penso que o sufrágio popular deixará de ser suco gástrico do aparelho digestivo da política portuguesa, quando o eleitor for tanto ou mais instruído e independente que o deputado eleito; mas sendo isto, como é, um absurdo, o sufrágio popular nunca poderá ser considerado um traço bastante sério da fisionomia do regímen representativo.

Camilo Castelo Branco
em “Hora de Paz”, 1865, pág. 276, e Jornal “O Tempo” nº 284, 1889.